Toc, toc, toc. 9h48. 1 de Maio, feriado, portanto. Toc, toc, toc.
Não posso acreditar. Não quero acreditar. Estavam de volta, iam começar a chegar.
Ninguém merece acordar com aquele caminhar suave de elefante a saltitar de folha de nenúfar em folha de nenúfar, especialmente depois de uma noitada até às três da madrugada. Poupem-me!
Antes de continuar este episódio de indignação pura e dura, gostaria de fazer uma pequena nota. Nesta fantástica história do quotidiano de umas pseudo-adolescentes, existem três raparigas, não direi normais, porque penso que não existem tais pessoas (até porque se existissem mesmo toda a sua normalidade iria fazer com que as pessoas as marginalizassem e apelidassem-nas de anormais), mas aceitáveis: eu (claro!), a Paty (erasmus, de longe, de muito longe) e a Joana. Não somos nerds, nem fúteis, não somos do tipo de pessoal que não toma banho desde que nasceu, nem umas dondocas que passam três horas fechadas na casa de banho a arranjarem-se antes de sair para as aulas. Temos objectivos de vida que não passam pela nossa imagem, a nossa vida passa, por exemplo, por tornar-nos cidadãs activas e úteis, por retribuirmos à sociedade o dinheiro que investiu nos nossos estudos (porque algum do dinheiro dos impostos são gastos connosco!) sendo os melhores profissionais que consigamos. Não viemos para uma universidade somente com o intuito de conhecer gajos bué bons e quem sabe arranjar marido.
Penso que esta descrição nos retira da categoria geração fútil, mas infelizmente não nos retira desta história macabra que nos atormenta a vida desde o início deste ano lectivo.
Tínhamos uma leve esperança, depois de termos estado um fim-de-semana sozinhas em casa, que as outras habitantes só voltassem na segunda-feira ao final do dia, visto ser feriado. Não nos tínhamos mentalizado que poderíamos gramar com elas tão cedo, a esperança de que iríamos ter sossego por mais uns momentos acalentava-nos a alma – até ouvirmos aquelas portas a bater, aquele caminhar em excesso de velocidade e de peso, aquela atmosfera negativamente carregada a assolar-nos a calma.
Mas chegaram tempestivamente, uma após outra, e continuaram a chegar até miseravelmente encherem a casa.
Não me apetece escrever mais por hoje, e mesmo que me apetecesse não podia, porque tenho mais que fazer, por isso…
…não percam o próximo episódio porque nós, inevitavelmente, também não.